sábado, 2 de fevereiro de 2013

AS VARIAS FACES DO FUTEBOL NO BRASIL

Evaldo Lima

Historiador e Bacharel em Direito
Secretário de Esporte e Lazer de Fortaleza

“Futebol se joga no estádio?
futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.”
Carlos Drummond de Andrade - Futebol

Uma Paixão Brasileira
O futebol no Brasil é mais que uma modalidade esportiva, é uma instituição nacional, patrimônio e identidadecultural da nossa gente. Ao lado das principais belezasnaturais brasileiras, como o Corcovado, Praia de Iracemaou a Amazônia, o futebol é considerado um cartão postaldo Brasil. Cada brasileiro, ao nascer, ganha não apenasum nome, mas também um time, um escudo e uma camisapara defender como segunda pele e manto sagradodesde os primeiros risos e prantos.Inspiração para o que há de melhor e o que há de mais sombrio na natureza humana – amor e ódio combinados, o futebol é uma alegoria perfeita para o nosso povo em sualuta para vencer e sobressair às difi culdades, movidos pelo fervor de uma ideia ou apenas de uma bola. Assim é tarefa impossível pensar o Brasil sem levar em consideração o futebol, parte significativa da alma do seu povo.A gênese do futebol ao sul da Linha do Equador tem uma trajetória improvável, quase acidental. Vestígios dos jogos de bola, encontrados em várias civilizações antigas
do Oriente, remontam a mais de três mil anos. Entretanto,a forma moderna pela qual o futebol é conhecido foi criada na Inglaterra do século XIX, em pleno auge da Revolução Industrial. De lá o futebol seguiu o caminho de marinheiros/aventureiros ingleses e estudantes das famílias abastadas que voltavam para o Brasil da Europa.

Esporte, Forma de Arte ou
Instrumento Político?

Em terras brasileiras, o futebol foi primeiramente um esporte reservado apenas para as elites, mas apidamentese tornou fenômeno de popularidade. Seja entre os mais ricos, intelectuais, imigrantes operários e camponeses ou entre as pessoas mais humildes das grandes cidades, o futebol se tornou paixão capaz subverter valores tradicionais e driblar difi culdades, propor alternativas para a superação dos confl itos sociais de uma sociedade extremamente desigual e questionar o mito da superioridade do homem branco.Enquanto esporte coletivo o futebol é sinônimo de fôlego, perseverança, respiração e transpiração. Contudo, o futebol também é luta de classes, catarse e poesia que surgem dos pés sonhadores do menino pobre para criar uma forma transcendente de arte corporal, com potencial para intervir nas lides políticas ou para transformar elementos da sociedade em que está inserida. Vejamos, por exemplo, o caso dos negros no Brasil,que se aproveitaram do talento dentro das quatro linhas para escapar à estupidez do preconceito e como maneira de ascender socialmente, como cita o mestre Mário Rodrigues Filho, no livro O Negro no Futebol Brasileiro. Imaginemos então a história do nosso país sem futebol, e daí poderemos concluir que a luta ainda em curso contra o racismo no Brasil não teria avançado tanto, em comparação com outras nações colonizadas pela Europa.

Futebol – O Ópio do Povo?

Capaz de arrebatar multidões, o futebol já foi chamado de ópio do povo, parafraseando a expressão cunhada pelo pensador Karl Marx, por se prestar facilmente à manipulação política e ideológica. Mas afi nal que ópio é esse que entorpece a todos, provoca vigor e alegria e potencializa a ação? Esse potencial foi percebido e utilizado, historicamente, por diversas forças políticas, especialmente em períodos de governos despóticos. Ocultos pelo sentimento de nacionalismo ou pelo orgulho étnico, interesses pouco republicanos encontraram no futebol a propaganda perfeita dos seus regimes.Estádios de Futebol foram palco também de lutas
pela Liberdade e contra a Ditadura Militar
No Brasil, o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), muito próximo do nazi-fascismo europeu, utilizou o futebol como elemento para forjar a identidade e o orgulho nacionais, articulando a comunicação entre as elites e a massa da população, através da imprensa, do rádio e do cinema. Foi o período de início da construção das grandes arenas esportivas, como o Pacaembu, em São Paulo e o Presidente Vargas, em Fortaleza. Em 1938, o próprio Getúlio Vargas participou ativamente dos preparativos para a Copa do Mundo da França. No fi nal, o escrete canarinho fez uma bonita campanha e conseguiu um respeitável terceiro lugar. No período que se seguiu ao Golpe Militar de 1964,essa exploração do futebol se aprofundaria, a par da tortura e da repressão. O Brasil se afi rmava como potência do futebol mundial com os títulos nas copas de 58/62, e o governo militar tentava vincular as conquistas futebolísticas à imagem do país, que crescia mais de 10% ao por conta de muitos empréstimos e investimento estrangeiro – era o
“milagre econômico”. Na Copa de 1970, no México, o presidente Médici era apresentado como um “homem do povo”e “apaixonado por futebol”. A vitória da seleção brasileira sobre a seleção italiana por 4 a 1, na fi nal, foi bastante explorada pela propaganda do governo Médici em slogans do tipo “Ninguém segura este país” ou “Brasil; ame-o oudeixe-o”. O técnico que classifi cou o Brasil para a Copa de
1970 foi João Saldanha, o “João sem medo”, que acabou substituído por Mario Zagalo durante a competição por sua visão política de esquerda.

Futebol na Taba de Iracema

Em Fortaleza, os dois principais estádios foram construídos em épocas ditatoriais. O Estádio Governador Pl
cido Castelo, mais conhecido como Castelão, o maior estádio do Ceará, foi inaugurado em 1973, durante um dos períodos mais sombrios da Ditadura Militar no Brasil. Já o tradicional Estádio Presidente Vargas, localizado no bairro do Benfica, foi inaugurado em 1941, no auge da ditadura estadonovista de Getúlio Vargas.

Pelo Estádio Presidente Vargas Nando des
fi lou
seu talento vestindo a camisa do Ceará

O estádio Presidente Vargas (PV), tombado pelo patrimônio histórico e local de afeto dos fortalezenses, passou por recente reforma executada pela Prefeitura de Fortaleza que buscou conciliar a modernidade e tradição de um equipamento de mais de 70 anos. Pelo querido PV desfilaram as chuteiras imortais de jogadores campeões mundiais desde a Copa de 1958 até 1970, craques como Gildo,Ademir da Guia, Mozart, Eliézer e Jacinto, entre tantos outros. O PV foi o palco do milésimo jogo de Rei Pelé, mas o Ceará estragou a festa vencendo o time do Santos por 2X1. O lendário anjo das pernas tortas, Mané Garrincha,
jogou no PV pelo Fortaleza em amistoso, no dia 28 de janeiro de 1968, contra o Fluminense. Não poderia deixar de mencionar o último título invicto do campeonato cearense, conquistado pelo glorioso Ferroviário no PV em 1968. Foram muitas histórias bonitas e outras nem tanto. Uma ação política sombria privou o Ceará e o Brasil de um dos maiores talentos que já jogou no PV - a tragédia aconteceu em 30 de agosto de 1970. À época, o Brasil experimentava o sabor amargo da Ditadura Militar. Na data citada, ocorreu a prisão do Fernando Antunes Coimbra,o Nando. Ele, que é um dos irmãos de Zico, jogou brilhantemente
no Ceará Sporting Club - dentre outros grandes clubes, mas teve sua história reescrita após este triste
acontecimento político.

O Caso Nando

Nascido no Rio de Janeiro, em Quintino Bocaiúva,Nando teve o privilégio de ter seis irmãos, sendo três deles também muito talentosos com a bola no pé. São eles José Antunes Coimbra Filho, conhecido por “Zeca”, que jogou no Fluminense-RJ; Eduardo Antunes Coimbra, o “ Edu”, que jogou no América-RJ; e, claro, o Zico, o “Galinho de Quintino”, maior ídolo da história do Flamengo. Os outros dois, Antônio e Maria José, fi caram afastados das quatro linhas.
O sucesso dos quatro irmãos Coimbra no futebol era motivo de orgulho, mas o posicionamento político progressista de Nando e de vários membros da família atraiu os olhares pérfi dos dos agentes da repressão, que temiam que a infl uência deles dentro e fora dos campos fosse usada para combater o regime militar. Nando, que a par da carreira no futebol, havia entrado para a Universidade de Filosofi a do Rio de Janeiro, chegou a ser professor do Plano Nacional de Alfabetização (PNA), projeto baseado nas propostas do pedagogo Paulo Freire para combater ao analfabetismo entre jovens e adultos. Com o Golpe de 1964, o PNA foi encerrado, pois estava promovendo ideias “subversivas”, jargão dos militares para defi nir todos que lutavam em defesa liberdade de expressão. A perseguição política sofrida por Nando, posteriormente
à sua prisão pelo regime militar é uma mancha vergonhosa na história do futebol brasileiro. A intolerância de
um governo antidemocrático interrompeu a sua carreira, e nos privou de desfrutar por mais tempo do sua aptidão invulgar e sensibilidade para o futebol-arte. A prisão de Nando não era punição suficiente para os militares, e toda sua carreira profi ssional foi prejudicada pela ditadura. Forçado ao exílio, Nando tentou jogar futebol fora do Brasil e foi para Portugal, país de origem dos seus pais, mas lá terminou sendo ameaçado pela polícia política do ditadorSalazar, a mando da ditadura brasileira. Nando, que para muitos que o viram jogar seria um craque superior ao próprio Zico, teve o curso de sua vida alterado por um período trágico da nossa história. A sua reabilitação pública, pelo estado brasileiro através da Comissão
Nacional da Anistia, é um ato de justiça, um testemunho às gerações futuras para que nunca cometamos os
mesmos erros ao permitir que a nossa liberdade e democracia sejam ameaçadas.
Nem todos que amam o futebol serão grandes atletas, mas todos aprendem a lição de que jogar bola também é opção de educação para a vida e seus irmãos simbolizam um pouco do sonho brasileiro de talento e superação, euforias e tristezas de um país que ainda luta para construir a cidadania extensiva a todos e que precisa resgatar páginas arrancadas da nossa memória. Viva o futebol, viva Nando, Viva o povo brasileiro.

RESGATE HISTÓRICO

RESGATE HISTÓRICO
Paulo Verlaine

Jornalista, Coordenador de Acervo e
Memória da Associação 64/68 Anistia.

“Nenhum caminho de fl ores
conduz o homem à glória”.
La Fontaine


“O importante é competir” é o ideal dos antigos gregos,criadores dos Jogos Olímpicos. A chama que não se apaga. O lema deveria guiar toda modalidade esportiva. Mas o que se verifi ca, na prática, é a variante exacerbada dessa orientação: o importante é ganhar. Derrota e vitória adjetivada, tipo “vitória moral”, não interessam. Apenas vitória, pura e simples. É a pragmática realidade tão distante do sonho helênico.
O esporte alivia as pulsões arquetípicas do ser humano:a agressividade, inclusive. Conclusão indiscutível, objeto de muitos estudos na área da Psicanálise. Daí sua utilização por ideologias e governos de todos os matizes ao longo da história, principalmente do século XX em diante, como forma de manipulação das massas.
O Ceará Sporting Club, ao longo de sua história quase centenária, participou e sofreu influências das mudanças sociais, políticas, culturais, técnicas e comportamentais ocorridas nessa longa trajetória. Por isso, o Centro Cultural do Clube Alvinegro, com apoio da presidência da agremiação e tendo a colaboração da Associação 64/68 Anistia, resolve oferecer ao público cearense, principalmente à grande e valiosa torcida do Vozão, este livro, trata da ligação do futebol com a política, tendo como mote a homenagem prestada ao jogador Fernando Antunes Coimbra, ex-atleta do time alvinegro, vítima de prisão e perseguições durante a ditadura militar vigente no Brasil
de 1964 a 1985. É uma contribuição à história do clube que se tem pautado pela não discriminação de pessoas,independentemente de suas convicções políticas, etnia ou crença religiosa. O fato é reconhecido por Antunes em depoimento a este livro, quando ele declara que não foi “perturbado, nesta rápida passagem pelo Ceará pelos algozes da democracia”.
Como diz a socióloga e professora de Ciências Sociais da Universidade Federal Ceará - UFC - Adelita Neto Carleial, em artigo publicado neste livro, “exemplos históricos registram o incentivo ao esporte por Mussolini que investiu fortemente em infraestrutura esportiva, construiu estádios e sediou na Itália a Copa do Mundo de 1934, além de Hitler com as Olimpíadas de Berlim, em 1936, que serviu para propaganda nazista da raça alemã”.
O professor e historiador Airton de Farias vai mais adiante, noutro capítulo: “O futebol não está à margem - Ele é a sociedade e não escapa a questões políticas, culturais, de classes, a estratégia de dominação das elites, as
táticas de resistência dos oprimidos, como acontece em qualquer agrupamento humano”.
A Segunda Guerra Mundial interrompeu a realização da Copa do Mundo de Futebol. A última Copa do Mundo antes do mega-confl ito ocorreu na França, em 1938. Outra Copa o mundo só veria em 1950, de triste memória para os
brasileiros, porque a competição teve lugar no Brasil, com a célebre final Uruguai 2 x Brasil 1, em pleno Maracanã. A Seleção Nacional, que já cantava vitória, entrou no campo precisando apenas de um empate. Deu no que deu.

Indíce

ÍNDICE
Resgate Histórico .................................................................
As Várias Faces do Futebol no Brasil .................................
Futebol, Ditadura e Direitos Humanos ................................
Abrindo o Jogo ...................................................................
Memórias dos Anos de Chumbo .........................................
A Camisa do Vozão no Exílio ...............................................
Camisa Alvinegra Entregue a Exilado ..................................
Esporte e Ditadura ............................................................
Futebol Atrás das Grades ..................................................
Histórias do Futebol no Tempo da Ditadura .......................
Aqui no Ceará Não Entra Comunista ..................................
Até no Futebol, O Arbítrio Imperava ....................................
Jogadores, Padres e Soldados .............................................
Para Não Dizer que Não Falei dos Espinhos .........................
Fatos de Uma Guerra ........................................................
O Futebol e In
fl uências Sobre O Regime Militar..................
Medo de Voar ...................................................................
A Ditadura Não é Mais Forte Que O Amor de Um Pai &
Uma Voz Pela Liberdade Ecoa no Estádio da Morte ..........
Algumas Verdades sobre a Comissão da Verdade. ............
Até o Apito Final ..............................................................

APRESENTAÇÂO

Neste blog estarão sendo postados materiais sobre a repressão no futebol. Para começar com textos publicados no livro Futebol & Ditadura, editado pelo Centro Cultural do Ceará Sporting Clube. Quem tiver interesse no livro impresso, solicitar pelo email chineloneles@uol.com.br